quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Casa de mãe _Sensação de (não) pertencimento

"Eu não tenho casa
Eu moro em casa de mãe
Casa de mãe é bom
Mas é casa de mãe

Eu não tenho casa
Eu moro em casa de mãe
E quando querem meu chamego
Não dá, por causa de mãe

(...)

Um dia vou ter minha casa
Vai ser a coisa mais linda
Com gravuras de Oxossi, Ogum e Mãe menininha"


Chega um momento na vida da gente que a vontade de ter a sua casa, seu canto, se torna evidente. Por diversos motivos: falta de liberdade, de privacidade, de espaço, de autonomia, de silêncio, excesso de cobranças, de exigências, de regras, de zelo... Sentimos que a casa dos pais (ou de mãe, como diz meu querido Criolo) não é nossa casa. De fato não é, nunca foi, mas é como se só a partir desse ponto começássemos a enxergar e, consequentemente, a nos incomodar com isso. Experimentamos uma nítida sensação de não pertencimento ao ambiente, que a cada implicância, discussão ou simples reclamação, vai se tornando maior. Ao nos tornarmos adultos certas regras de infâncias passam a não fazer mais sentido. Que mal tem em "esquecer" de arrumar a cama de vez em quando, se ninguém vai entrar no quarto mesmo? Que diferença faz chegar trinta minutos antes ou depois da hora combinada? Além disso passamos a perceber nossos pais como pessoas que eles são, não apenas como pais.  

Sem contar a impossibilidade de ficar sozinho. Não sei vocês, mas eu adoro e preciso ficar sozinha. Quando não posso fazê-lo sinto muita falta. Tem dias que você simplesmente não está a fim de ver ninguém, nem falar com ninguém, quer apenas ficar a sós com seus pensamentos. Mas "em casa de mãe" se você se tranca no quarto não demora para alguém bater e perguntar se está tudo bem... No meu caso, as vezes o isolamento dura dias, então logo já levanta suspeita de doença, ou algo do tipo... rs

Quando finalmente conseguimos nossa independência financeira e nos mudamos para um cantinho só nosso, é um alívio. Aumentam as responsabilidades mas vale a pena. Basicamente você não pode esquecer de pagar as contas na data certa e de colocar o lixo para fora nos dias que o caminhão passa. Também tem que comprar comida, não muito para não estragar e nem tão pouco para não ter que ir no mercado muitas vezes. De resto, você faz as próprias regras. Não tem "dia da faxina" ou "almoço de domingo". Além da casa sujar bem menos pois é só você, ninguém vai ver a bagunça (claro que essa regra muda quando você vai receber visitas rs). As refeições são feitas não de acordo com o horário de Brasília, mas sim de seu relógio biológico. Tudo está liberado: pizza no café da manhã, almoço as quatro da tarde, lanche as três da manhã... 

Aí alguns irão perguntar: você não sente falta da comida da mamãe? Sim, a gente sente. Não só disso, mas também do cheirinho dela pela casa, mesmo ela tendo saído antes de você acordar; De deixar o guarda roupa todo revirado por pressa de sair, deixar para arrumar depois e se surpreender que "alguém" já arrumou tudo; de chegar em casa e ter para quem contar algo engraçado que viu na rua; de chegar triste e ter um colinho... mesmo que esse "colo" seja apenas o conforto de sua presença, sem falar nenhuma palavra...

Mas quando temos o nosso cantinho não perdemos nada disso, pelo contrário: aprendemos a valorizar... Quando não moramos mais com os pais e vamos visitá-los percebemos como aquele lar será sempre "a nossa casa". Meio confuso, mas é assim mesmo: a percepção muda completamente. Se antes a sensação era de não pertencimento, de intruso, agora se inverte, passa a ser de total pertencimento afetivo àquele lar. Digo "lar" pois a casa pode até mudar, mas onde quer que esteja a família, aquele será sempre o "nosso lugar". Você pode rodar o mundo, morar em outro país anos e anos, viver viajando, ser um cidadão do mundo... Pode amar sua casa que você fez do seu jeito, com suas coisas e preferências... Mas se há um lugar no mundo em que você sente que pode sempre voltar aconteça o que acontecer... Se há um porto seguro, um habitat natural, esse lugar é casa de mãe.




PS.: Escrevi esse texto há mais de um ano, enquanto estava morando sozinha. Há uns meses voltei pra "casa de mãe". Recentemente descobri que já inventaram um nome pra isso: Geração Bumerangue kkkk...  Agora só de pensar em sair novamente (o que acontecerá em breve), já dá um apertinho no coração... A vida tem dessas coisas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Pessoas tóxicas



Com certeza você já ouviu falar de pessoas tóxicas. São aquelas que de tão negativas afetam não apenas a si mesmas mas também quem está perto. Conviver com elas gera desgaste emocional, pois são verdadeiros sugadores de energia. Nem sempre a pessoa o faz de propósito, aliás, geralmente ela nem sabe que é tóxica. Mas isso não muda o fato delas serem prejudiciais, principalmente aos mais próximos.
Existem aqueles tóxicos clássicos, como o ex (ou atual) abusivo, o chefe que tem prazer em humilhar seus funcionários, aquela tia que sempre te pergunta quando você vai arrumar um namorado (quando você namora pergunta quando vai casar, quando casa pergunta quando vai ter filho, etc...), o pessimista que vê defeito em tudo, o fofoqueiro que fala mal de todo mundo, o mentiroso compulsivo, o falso que se finge de bonzinho...
Esses não são tão perigosos pois é fácil identificá-los. Sua energia negativa é quase palpável. Porém, existem aqueles que nem desconfiamos mas que acabam fazendo a gente desperdiçar uma energia danada, sem se dar conta. 
Sabe aquele amigo de infância que você não vê há anos e que te deixa todo ansioso para reencontrar, mas aí quando acontece você percebe que a pessoa se tornou um total estranho e vocês não tem mais nada em comum? É frustrante se dar conta que uma amizade (ou um amor) que já foi tão importante na sua vida um dia morreu. Mas acontece, pois as pessoas mudam e nem sempre seguimos por caminhos parecidos. Acontece que em situações como essa muitas vezes não aceitamos o fim, não deixamos a pessoa ir, seguir seu rumo longe da gente, tentamos de alguma forma fazer aquela amizade renascer dentro de nós mesmos e do outro. Outras vezes é o outro que não larga o osso e nos vemos naquela situação forçada e desconfortável, sem saber como sair. Afinal, como simplesmente virar as costas para alguém que nos ajudou muito? Ou como aceitar que quem amamos não nos ama mais?
Por mais que nossa intuição nos avise que aquilo não vai dar certo, a culpa nos convence de que devemos dar mais uma chance àquela pessoa. Afinal, se ela me procurou é porque gosta de mim e sentiu minha falta, certo? Que tipo de ser humano terrível eu seria se não fizesse um esforço? A verdade é que nem sempre alguém que reaparece do passado o faz porque gosta realmente de nós. As vezes as pessoas o fazem por pura curiosidade ou pior, por inveja.
Sim, é triste admitir isso, parece prepotência, mas não é. As redes sociais viraram um tipo de competição de quem tem a vida mais divertida e feliz. Quem viaja mais, quem sai mais nos fins de semana, quem fica mais bonito nas selfies, quem come as coisas mais gostosas... É natural que quando nossa vida não está muito interessante a gente acabe sentindo inveja de quem aparenta estar vivendo uma situação melhor que a nossa. Eu disse "aparenta" pois nem sempre o que parece é, ainda mais nas redes sociais. Daí bate uma curiosidade de saber se aquela suposta felicidade é real, onde está o ponto fraco daquela pessoa, não é possível que não tenha um defeito... E muitas vezes é esse sentimento meio mesquinho, porém totalmente humano, que motiva a mandar o primeiro "oi". Não é saudade, nem tampouco preocupação. Ou talvez seja um misto de tudo isso. A questão é que geralmente nem a própria pessoa reconhece pra si mesma que tem inveja. E daí para o outro perceber isso também não é tão simples. Perde-se muito tempo e energia tentando ser cordial com quem na verdade está apenas tentando se sentir melhor procurando pelos seus defeitos e fraquezas. Muitas vezes, tentando até mesmo te sabotar (consciente ou inconscientemente).
Mas como perceber e evitar pessoas assim? Se culpando menos e ficando mais atento aos sinais: a culpa nos deixa meio cegos, acabamos fingindo que não vemos o que está diante de nossos olhos. Basta reparar em como a pessoa te trata. Ela demonstra indiferença? Só te procura quando precisa? Te condena ao invés de tentar te entender? Você sente sinais de falsidade? Ela combina coisas com você e te dá bolo ou desiste em cima da hora, te deixando na mão? Não se interessa por nenhum assunto que você goste? Vive falando mal dos outros pra você? Se faz de vítima? Problematiza tudo que você fala? As conversas acabam virando sempre discussões? Te critica muito? É muito irônica e\ou sínica? Demonstra frieza e\ou se diverte com seus problemas? Gosta de falar mas não de te ouvir? Você sente que depois de conversas com ela perde a paz, fica nervoso ou cansado? Tudo isso são indícios de que essa pessoa não está te fazendo bem.
É interessante se colocar no lugar do outro e analisar as próprias atitudes para ver se não estamos sendo também pessoas tóxicas. As vezes tendemos a ser esponjas, absorvendo toda a negatividade, outras acabamos sendo espelhos, refletindo comportamentos ruins. O melhor é se afastar daqueles que nos fazem mal e tentar não ser como eles. Afinal, a pessoa que é assim sofre. É importante aprender a deixar ir: tudo que quer ir, tudo que não acrescenta, tudo que nos faz mal, tudo que nos atrasa, tudo que nos tira a paz. Pensar primeiramente em si mesmo não é egoísmo, é amor próprio.


sábado, 17 de setembro de 2016

Amora

Sobre a morte de Domingos Montagner num rio em Canindé de São Francisco, no Sergipe, os índios que gravaram cenas com o ator em "Velho Chico" disseram:



"Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo, hoje, se tornou um novo protetor do rio São Francisco, que estava tão esquecido, porque esse rio não pode morrer. A novela contou mistérios do rio e esse foi mais um desses. Mas ele se tornou um ser de luz, pois a água não tira a vida, dá a vida e fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio, se despediu do corpo e da alma, nasceu em um mundo melhor. Algum dia, os brancos irão entender isso, então temos que fazer um ritual para que os brancos entendam, que ele está bem, que ele, agora, é um protetor do rio São Francisco."

Em 2014 a conheci. Eu trabalhava acompanhando uma obra dentro de um ceasa. Minha equipe estava fazendo concreto e ela ficava correndo atrás de um e de outro, como se aquilo tudo fosse uma grande brincadeira. Estava visivelmente perdida e pedindo atenção, mas parecia invisível. Pra eles, mas eu a vi. Depois passei a lhe dar água e ela passou a me seguir onde eu fosse. Menos ao prédio de manutenção e ao administrativo. É que essas áreas já tinham donos. Eram duas matilhas bem definidas, cada uma ocupava os arredores de seu respectivo prédio. Nenhum invadia a área dos demais, mas o espaço (enorme) que separa os dois prédios era livre. E por esse espaço ela transitava, me seguia, brincava... Como eu já conhecia cada morador de lá, sempre soube que ela havia sido abandonada ali naquele dia. No entanto, ela não era triste (ou pelo menos não demonstrava). Ela também não era de rua, estava a procura de um amigo humano para lhe amar e lhe dar um novo lar. E assim ela foi me cativando. Acho que no segundo dia descobrimos que ela gostava de brincar de pegar "bolinha" (na verdade jogávamos uma batata que havia sobrado da feira e estava no chão). Foi quando me perguntaram se eu ia levá-la pra casa e me surpreendi dizendo: "Sim!" Não tinha coleira, nem mesmo um pedaço de corda que eu pudesse amarrá-la, nem dava para levá-la no colo pois não era tão pequena assim, e tínhamos belos 30 minutos de caminhada pela frente, com direito a subidas de morro e tudo... Então eu a chamei: "Vem! Vamos pra casa!" E ela foi, andando ao meu lado o caminho inteiro, sem fugir pra lugar nenhum. Quase chegando em casa tinha um pet shop, já estava anoitecendo, mas felizmente o moço que dava banho ainda estava lá e atendeu meu pedido de bom grado, apesar do horário. Compramos ração, coleira, essas coisas todas, e fomos para casa felizes e cheirosa (no caso ela). Ela adorou o colchão que ficava na sala e que antes costumava ser meu "sofá", tanto que imediatamente passou a ser sua cama. Muitas confusões se passaram: desde chinelos destruídos à lixo do banheiro rasgado encima da minha cama; brigas entre eu e meu ex que ela entrava no meio pra separar (inclusive chegou a ficar doente uma vez de tristeza); várias fugidinhas, pois amava correr e era obrigada a viver em uma kitnet; vários lixos dos vizinhos rasgados, pois ela não gostava muito da dieta que se resumia à ração, queria variar o cardápio; muito pelo pela casa toda (TODA mesmo, tinha pelo dela até na minha alma)... E ela era de opinião, personalidade forte. Não abaixava cabeça pra ninguém, nem mesmo pra mim! Falava muito e reclamava!!! Mas sempre com razão, devo admitir. Quando eu demorava pra voltar então? Era obrigada a ouvir um sermão... Mas também era muito amor. Um amor desesperadamente apaixonado por mim. Tudo se resolvia com um passeio no parque. Lá ela se realizava: corria como um foguete e fazia amigos. Não tinha um cão que ela não convidasse à brincar: não se importava se fosse de rua ou de raça, contagiava a todos, fazia os donos soltarem as guias e todos corriam livremente pela grama... Parecia mágica. Parecia não, ela era mágica. Não atoa me cativou, cativava a todos. Velhos, adultos, crianças e cachorros, não havia quem não parasse para olhar e comentar: "Como ela corre!" (no caso os cães comentavam com os olhos atentos e as orelhas em pé, tal como o rabo). Eu tenho consciência que não fui a melhor mãe. Passeei menos do que ela precisava, brinquei menos do que ela gostaria, dei menos banhos que devia e certamente a deixei muitas vezes sozinha. Ela por sua vez, me fez companhia nos momentos em que mais precisei. Compartilhou comigo os momentos mais difíceis e solitários que passei na vida. E momentos bons também. Me deu muitas alegrias, arrancou de mim muitas risadas, mesmo quando a vida não estava sendo fácil. Me fez sair da cama várias vezes (quando nada mais faria), nem que fosse para levá-la pra fazer xixi/cocô. Me deu muito amor e carinho e me lembrou o significado do amor verdadeiro, amizade, lealdade... Foi minha companheira, quando todos os outros que me amavam estavam longe. Viajou por horas dentro de um caminhão de mudança por mim. Fez amizades com seus irmãos, que até então não conhecia. Se adaptou à matilha e aceitou na boa dividir a mãe. Ganhou um novo lar com um quintal grandão pra correr, e correu, correu muito. Até que um dia ela se foi. Se por maldade humana ou acidente, nunca saberemos. Mas mesmo fraca ela me esperou. Esperou eu chegar em casa. Então eu a pedi, implorei, para que não fosse, esperasse eu levá-la ao médico. E assim o fez, resistiu bravamente por todo o caminho, apesar da dor intensa que estava sentindo. Chegando na clínica ela se foi, mas sei que se esforçou até o último segundo pra não me deixar... Seu último suspiro aconteceu quando a coloquei na mesa do médico, ou seja, quando saiu dos meus braços.
Seu nome era Amora. Quando nos conhecemos era época da fruta, todas as amoreiras do ceasa estavam carregadas. É um nome divertido, alegre e que remonta à amor no feminino. Mas na verdade, sem eu saber, escolhi esse nome por causa de uma amiga muito querida que tive na infância: uma amoreira enorme que vivia carregada e morava no meu quintal. Eu vivia trepada em cima dela, comendo amora do pé... Meus pés viviam roxos pois era tanta amora no chão que a gente acabava pisando (eu vivia descalça), que por mais que esfregasse não saía no banho. Debaixo de sua sombra eu brincava com meu irmão e primos. Mas quando meus pais ampliaram nossa casa ela foi cortada. Existia outro pé de amora no quintal, mas esse sempre foi mais tímido, meio sem vida. Este permaneceu mas nunca deu muitos frutos como a outra. Quando a Amora se foi, fiz questão de enterrar seu corpinho no pé dessa amoreira. Isso foi em abril. Esse ano, apesar da seca, a minha amoreira está carregada como nunca! Já chorei muito e praguejei, não entendia o porque dela ter ido tão nova, justamente quando estava sendo feliz e tento espaço pra brincar como sempre quis! Ao colher uma amora do pé finalmente eu entendi, de repente a ficha caiu: ela não me deixou, foi sua força e alegria que encheram a árvore de frutos!
Amanhã, dia 18 de setembro de 2016 faz dois anos que adotei a Amora. Mas não tenho ideia de quanto tempo faz que ela me acompanha e cuida de mim (em espírito, em forma de árvore, de cachorro, etc...). Obrigada Amora. Te amo <3 <3

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"Eu vi que não foi em vão e que tamo junta não é só uma frase"

Hoje, 14 de setembro de 2016 era pra ela estar completando 33 anos. Mas já faz mais de 5 que ela se foi. Não, ela não "se foi", ela foi tirada de nós, foi brutalmente e lentamente assassinada por essa sociedade hipócrita e mesquinha. Falo de Amy Jade Winehouse. Não foi só uma diva da música com um talento esplendoroso que perdemos. Foi a vida de uma mulher de um coração lindo, assim como tantas, todos os dias.












Aí você pode me perguntar mas o que a Amy tem a ver com isso? Ela não foi estuprada nem assassinada, ela morreu por causa das drogas... Pois é... É muito fácil jugar, apontar o dedo, sem se perguntar o que levou a pessoa a chegar àquele estado. É muito fácil se aproveitar da desgraça alheia para ganhar audiência. Difícil é se colocar no lugar do outro, difícil é ter compaixão pelo sofrimento alheio. Eu entendo o que ela passou. Ela era como eu, uma menina frágil, ingênua, que só queria ser amada e que não sabia se amar. Achava que o amor deveria vir de fora e não de dentro. Esperava por um príncipe encantado que viesse lhe dar sentido à vida. Quando pensou tê-lo encontrado fez de tudo para não perdê-lo. Se doou, se machucou, se humilhou... Sem saber que não precisava de nada disso, sem saber que merecia coisa melhor, sem saber que era maravilhosa...

A sociedade nos ensina que devemos ser esposas e mães. Nascemos para isso e devemos fazer de tudo para fisgar um boy. Somos doutrinadas desde criança a gostar de se arrumar, se maquiar, nossas bonecas já vem cheia de maquiagem, com peitões e sem celulite... Brincamos de casinha, cozinhadinha, mamãezinha... 

Somos cobradas o tempo todo quanto a nossa aparência. Se não se arruma é desleixada, se se arruma demais tá igual puta... Tem que ser magra, tem que ser branca, tem que ser bonita, tem que se maquiar, tem que, tem que, tem que... Tem que agradar ou nunca será amada. Nisso se foi nossa Amy, e não só ela... Quantas Amys, Marias, Geovanas, Letícias, Camilas, Déboras, e etc, etc, e etc morrem todos os dias por causa do MACHISMO?




Se um homem se sente no direito de tirar a vida de uma mulher só por ela ser mulher ou de estuprá-la é por causa do machismo. Mas não é só isso que mata nossas mulheres. A ditadura da beleza machista também mata (anorexia, bulimia, etc); a invisibilidade da mulher mata; a falta de oportunidades mata; a violência doméstica mata; a depressão (muitas vezes causada pelo que foi citado acima) mata; a solidão e desprezo matam; não se amar mata lentamente cada pedacinho da alma...

É por isso que hoje eu quero lembrá-la como um símbolo dessa luta que é o simples fato de nascer mulher...

Tem uma rapper muito foda chamada Lívia Cruz. Ela está sendo criticada por ter feito uma música inspirada em outra, uma resposta. Cara, é de foder! em pleno 2016 uns caras vão lá e fazem uma música escrotizando geral, chamando mulher de puta, interesseira e por aí vai, e quando uma mulher faz uma resposta foda pra caramba tem machinho que ainda acha ruim! Os caras estão com a cabeça onde? Pagando de rapper americano? Hello! Enquanto vocês estavam pirralhando titia Lívia já mandava as rima dela e arrasava! E olha que ela só tem 25 anos (minha idade ^^)! Ouçam a música dela "Eu tava lá" e o papo reto que ela mandou sobre a música lá no canal dela do youtube!



É isso aí, vai ter mulher no rap sim! Vai ter feminista sim! Vai ter mulher lutando por visibilidade sim! Vai ter esculacho de homem machista sim! Vai ter mulher na presidência sim! Vai ter mulher de shortinho sim! Vai ter de véu também! Vai ter topless sim! Vai ter lésbicas sim! Vai ter piriguete sim! Vai ter puta sim! Vai ter tudo que a gente quiser, porque lugar de mulher é onde ela quiser, não onde vocês nos colocaram até hoje!



sábado, 25 de junho de 2016

Vamos falar sobre relacionamentos abusivos. De novo? Sim, de novo.

Para uma relação ser abusiva não precisa ter agressão física.
Muitas vezes uma agressão psicológica faz mais estragos na vida de uma pessoa do que a física.
Mas para uma relação ser abusiva não precisa nem ter agressão. Ou pelo menos, não explícita.
Basta ter abuso.
E o que é abuso?
Abuso é se aproveitar de uma posição de poder e/ou destaque para seduzir pessoas das quais você não deveria nem se envolver emocional e sexualmente, por uma questão de ética profissional?
Sim, isso é abuso.
Mas e se a "suposta" abusada demonstra afeto e/ou atração primeiro, isso ainda é abuso?
Vamos ver as opções: perante a lei essa pessoa já é considerada responsável pelos seus atos? Ou seja, é maior de idade?
Sabemos que não é apenas uma questão de lei, afinal o ser humano é tão subjetivo, não é mesmo? Vamos ver...
Falei de ética profissional pois no caso a "suposta" abusada era cliente do "suposto" abusador. Ela poderia ser sua aluna, sua paciente, sua passageira, não importa... O que importa é que os pais dela pagavam uma instituição em que confiavam e essa instituição pagava o salário do tal sujeito para exercer sua função.
Um profissional que utilizava sua imagem de ético, honesto, o cara pobre que venceu na vida com muito esforço (etc) para fazer propaganda de si mesmo, o tempo todo. O típico herói sofrido brasileiro... 
E foi justamente por essa imagem que a menina se encantou. Mal sabia ela que não passava de um personagem, uma máscara fajuta...
Quem era ela? Uma menina inexperiente, virgem, que nunca tinha tido um relacionamento de verdade... Uma menina sonhadora, romântica, que se apaixonava platonicamente desde sempre e sonhava com um príncipe encantado. Era também bastante tímida e solitária pois nunca se encaixava direito em lugar nenhum e tinha dificuldades para fazer amigos. Era bem insegura, apesar de inteligente, escrevia bem mas falava pouco, era inconformada com o mundo e bem deprimida...
E quem ele era, realmente? Um cara sem escrúpulos, que se aproveitava da confiança e empatia de seus clientes (quase todos menores de idade) para dar um de amigo, desses que beijam e abraçam as amigas (até demais)... Ele já tinha esse histórico de outros lugares em que havia trabalhado, mas sua auto-propaganda tentava abafar esses "boatos". Ele era forçado e exagerado em tudo que fazia. Isso era nítido pra todos, menos é claro para a menina que se sentia solitária e que idealizava amores platônicos. Apesar da péssima interpretação do ator, ela acreditou que ele realmente era o herói que fingia ser.
Ele, que não era bobo nem nada, percebeu logo a admiração da garota e a encorajava ainda mais. Sabendo de sua insegurança e timidez, a elogiava o tempo todo, fazia questão de dizer sempre para ela e também na frente de todos que ela era a melhor, sua preferida. Era um flerte quase escancarado, mas ele o fazia com os requintes necessários para que ninguém conseguisse decifrar totalmente a mensagem. Ficava no máximo uma dúvida no ar: será? Enquanto isso ele a fazia acreditar que era especial. Finalmente alguém tinha percebido o quanto ela era inteligente e interessante.
A amizade dos dois ultrapassou os muros da instituição, foi para as redes sociais. Ele lia os textos dela e comentava, falava dela (elogiando, logicamente) em textos dele, conversavam pelas redes sociais...
Em uma dessas conversas "virtuais", a menina que já tinha quase certeza das intenções do sujeito, com o coração na mão de tanto nervosismo, tomou coragem e resolveu investir. Afinal não aguentava mais aquela dúvida cruel: "será que ele me quer, realmente gosta de mim, ou estou confundindo as coisas?". Ela precisava saber. 
Vocês acham que ele esclareceu as coisas e disse que aquilo era errado e não poderia acontecer? É claro que não. Era justamente isso que ele estava não apenas esperando, mas provocando para que acontecesse a tempos! Chegando nela ele correria o risco de levar um fora e ainda de o assunto vazar, manchando sua reputação de homem bom. Ele deixou que a ovelha fosse "de livre e espontânea vontade" ao próprio matadouro, alimentando nela esperanças, interpretando um personagem... Assim, na pior das hipóteses, mesmo que desmascarado teria o argumento perfeito: "foi ela que quis".
E assim foi. Diante da quase declaração da menina ele marcou um encontro com ela fora da instituição. Queria leva-la direto a um motel, mas diante do susto da menina virgem a levou em um local público, porém escuro e discreto. Ali mesmo ele começou seus joguinhos psicológicos, chegando a fingir que não chegaria as vias de fato, interpretando um falso moralista. Mas isso só durou uns instantes.  Provavelmente pensou que ela iria implorar por um beijo dele e assim ele se sentiria ainda mais fodão. Mas isso não aconteceu. Por um instante a menina pensou que realmente ele a tinha levado ali só para conversarem e chegar a conclusão de que aquilo era errado e não deveria acontecer. Por um instante ela se sentiu envergonhada de querer aquilo. Mas foi um instante só, porque no seguinte ele a surpreendeu com um beijo. De repente o discurso mudou e a desculpa era muito convincente (ao menos para ela): ele também estava apaixonado e não podia resistir.
Ah, já ia me esquecendo de um pequeno detalhe: ele era casado.
Para justificar a traição à esposa (que publicamente ele tanto elogiava), ele inventou para a menina uma história mirabolante onde a esposa (que ele falava para todos ser tão amada e perfeita) era na verdade uma traidora. Sim, ele traia mas a errada era a esposa! Ele era o bonzinho que havia perdoado uma traição suja e desleal da mulher, e agora, nada mais justo que ele viver essa história de amor, afinal de contas estava no seu direito... 
A menina tinha esperança de que ele largasse a esposa traidora e ficasse com ela, mas ele dizia que era muito difícil para ele fazer isso porque amava as duas. Além disso, ela dependia financeiramente dele então ele tinha dó de deixá-la. Então a menina tinha que se conformar com migalhas... Passava a semana inteira esperando o dia em que pudessem se ver. Esses encontros, que não passavam de minutos, as vezes poucas horas, na maioria das vezes se resumiam a sexo. A menina lhe servia de prostituta gratuita, nada mais, mas na cabeça dela aquilo era amor. Pois ele falava incansavelmente que era.
Falando em sexo, a menina que até então era virgem, logo no segundo encontro entrou pela primeira vez em um motel. Afinal, ele não podia se dar ao luxo de ficar se encontrando com ela em locais públicos... Ele usou de sua esperteza e experiência para convencê-la de fazer coisas que normalmente ela não faria, sem precisar forçá-la. Como por exemplo, dizer que era "muito comum" as meninas da idade dela fazerem sexo anal, pois assim não perdiam a virgindade oficialmente. Ela nunca tinha ouvido falar disso, mas como ele disse que era normal, ela acreditou. Ela ainda achava que ele fazia isso por se preocupar com ela ainda não estar pronta para transar (como se aquilo não fosse transar). Pobre iludida menina, não percebia que ele apenas estava ganhando tempo, esperando que ela fizesse 18 anos para que assim ele não pudesse ser responsabilizado criminalmente de ter tirado sua virgindade, caso seus pais descobrissem e o denunciassem. Não satisfeito, ele criou a brincadeira de "só a cabecinha", para que ele a penetrasse na vagina mas não muito. O motivo vocês já sabem... Só que numa dessas, faltando meses ainda para o aniversário da menina ele não resistiu e foi até o fim. A essa altura a sensação de impunidade já havia crescido e ele se permitiu se dar esse luxo, afinal de contas já havia a dominado emocionalmente, tendo certeza que ela nunca o denunciaria.
E ele estava certo, a menina faria de tudo para manter aquilo em segredo. Tanto que passou a se afastar de seus colegas, também clientes do sujeito. À essa altura todos já desconfiavam, mas sendo ela uma menina fechada, não dava intimidade para ninguém tirar a dúvida. Das poucas pessoas que teriam intimidade para isso, ela simplesmente se afastou. 
A vida dela se transformou em um mundinho fechado onde só existiam os dois. Logo ele era seu único amigo, única companhia, único conselheiro, única distração, único tudo... Ela não tinha amigos, não tinha perspectivas, não tinha alegrias e prazeres saudáveis, só tinha migalhas de atenção daquele tarado, que fingia ama-la.
A menina sofria pois era obcecada por ele e tinha ciúmes da esposa. Criou verdadeiro ódio dela, pois na sua cabeça ela era a única coisa que impedia que os dois fossem felizes. É isso que os agressores fazem, colocam vítima contra vítima, e ele sempre sai como bonzinho... Mesmo sofrendo a menina não saía daquilo pois acreditava que o amava mais que tudo e também pois achava que ela não merecia coisa melhor... Como ele sabia que nunca ia largar a esposa por ela, para ninguém dizer que ele era injusto, começou a incentivar que a menina conhecesse outras pessoas.
A maneira como ele a tratava a fez acreditar que aquilo era amor: alguns minutos de sexo semanais. Então, dado o incentivo, ela começou a transar com outros caras. Com qualquer um. Ela sentia que como não era mais virgem não tinha mais valor, então tanto fazia transar com um ou com todo mundo... E inconscientemente ela acreditava que se fosse boa de cama e fizesse tudo que um cara quisesse ele iria amá-la. Ela não era uma tarada, ninfomaníaca, nada disso. Era só uma menina querendo desesperadamente, implorando amor. E ela foi ensinada pelo seu professor que amor se conquistava com sexo. Ela queria ser amada por alguém que não fosse casado e pudesse substituir aquele "amor" que a fazia sofrer tanto, que a deixava tão sozinha em 99% do tempo... Ela queria desesperadamente sair daquela situação, mas sozinha não conseguia, não tinha coragem, não tinha força...
Ele ouvia seus relatos de sexo casual com atenção e excitação. Ela não queria falar daquilo, mas ele insistia, pois lhe dava tesão. Ele dizia que tinha ciúmes, mas não era isso que demonstrava. A menina se degradava a olhos vistos e ele se divertia à suas custas, em todos os sentidos... A menina sofria, muitas vezes chorava nos braços dele, mas nada mudava... Ele não largava a mulher, nem tampouco cogitava romper com a menina... Aquela situação já se estendia por mais de dois anos...
Até que um dia a menina conheceu alguém. O cara se aproximou dela pelo que ela escrevia e por semelhanças ideológicas. Trocaram ideia pela internet um tempo, até que um dia se conheceram. A menina se apaixonou. Ele era mais novo que o sujeito, era solteiro e demonstrou gostar dela. Não parecia ser como os outros que só se aproveitavam e logo pulavam fora. Ele gostava de conversar com ela sobre política, música, e era carinhoso. A menina viu que aquela era a chance de sair daquela relação de sofrimento e solidão e começar uma nova, cheia de esperanças de dar certo... Então ela tomou coragem e terminou com o sujeito lá. Ela não o fez por maturidade ou empoderamento, fez por estar mais uma vez se iludindo e achando que aquele seria seu príncipe encantado. Mas pelo menos ela o fez. Saiu daquela prisão em que se encontrava.
Vocês acham que o sujeito se conformou e desejou que ela fosse feliz? Foi maduro e consciente o suficiente pra deixar ela em paz? Claro que não... Ele a perseguia nas redes sociais, mandava e-mail dizendo que estava com saudades, as vezes ligava tocando a "música dos dois". Anos depois, quando ela já estava em outra relação (também abusiva, afinal o que ela aprendeu como "amor" era uma ideia bem distorcida, sua auto estima ainda era um lixo e ela ainda achava que devia se submeter à todas as vontades dos outros pra ser amada), ele ainda telefonava pra ela de vez em quando, mesmo sabendo que aquilo poderia causar um problema na relação dela. E causava, pois seu namorado da época tinha ciúmes doentios e qualquer coisa era motivo para causar uma briga cheia de acusações e humilhações verbais...
Vocês percebem o quanto esse cara prejudicou a vida dessa menina? O quanto seu "amor proibido" causou e aumentou problemas emocionais e psicológicos nela? Entendem que auto estima e amor próprio dela praticamente não existiam, por isso ela se submeteu a uma série de relacionamentos abusivos? Que ser "a outra" aos 17 anos foi um fantasma cheio de culpas que ela carregou por muitos anos? Que depois que ela percebeu o quanto foi trouxa sentiu nojo e raiva de sim mesma por muito tempo? O quanto vocês acham que foi difícil pra ela se perdoar? O quanto demorou para ela aprender a se amar? O quanto isso lhe custou? Quantos anos desperdiçados sofrendo nas mãos de abusadores? Quanto tempo ela ficou presa nessa gaiola emocional? O quanto ela se desgastou, se arriscou, sofreu e se humilhou? Quantas vezes ela quis morrer, só pra se livrar da dor de estar viva?

Então, será que podemos chamar o "sujeito" de abusador? Acho que sim, né?

Pois é, o abusador, que hoje se tornou político (afinal, sua fama de homem honesto é quase impecável) veio esses dias falar com a ex-menina (pois hoje ela é uma mulher que à duras penas superou tudo que passou) que não entende por que ela nunca mais quis falar com ele. Não entende por que ela o odeia, afinal de contas ele nunca a fez mal algum... Ele a exigiu uma explicação. Ela simplesmente lhe disse que não lhe deve explicação nenhuma e deixou claro que dele só quer distância. Mas a menina anda pensando... Quem sabe não seja a hora de acabar com o silêncio? Afinal, foi ele mesmo que quis mexer nesse passado. Talvez seja a hora de desmascará-lo perante a sociedade, seus eleitos, seus clientes, os pais de seus clientes e até de sua esposa... As eleições vem aí... Talvez seja a hora de todos saberem o quão podre ele é... Talvez...